<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-20075512</id><updated>2011-04-22T04:13:20.625+02:00</updated><title type='text'>o homem que escrevia nas janelas</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://ohomemqueescrevianasjanelas.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20075512/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ohomemqueescrevianasjanelas.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Caçador de Palavras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05214647989114238912</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_H2jDtWUO6N4/SUgzcFMQQGI/AAAAAAAAAtE/WH9cxVBB0dM/S220/Fotografia+de+Ant%C3%B3nio+Catarino.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>1</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20075512.post-113519654126306135</id><published>2005-12-21T21:21:00.000+01:00</published><updated>2006-06-11T16:37:39.093+02:00</updated><title type='text'>(Excerto contendo 11 de 21 textos e fotos)</title><content type='html'>“Histórias de bem aventurança numa soma de más horas.” Assim se poderia chamar o livro que eu resolvi viver. Reparem bem: eu disse viver, não disse escrever. A vida escreve-nos, porque não poderia eu escrevê-la também? Eu vivo… seguidamente escrevo a vida nas janelas – afixo o que vivi em janelas. Não, não sopro o meu bafo nos vidros das janelas para depois neles garatujar com o indicador as glórias e desventuras das últimas vinte e quatro horas. Não, nada disso. O meu método é bem mais simples e eficaz. Eu escolho uma janela e confidencio-lhe um episódio da minha vida – atribuo-lhe uma estória, um pensamento, uma sensação. Mais tarde, sempre que pretender reler (ou rever) essa passagem da minha vida, é só procurar de novo a janela em questão por entre as ruas da cidade. Às vezes acontecem acidentes, edifícios vêm abaixo ou são demolidos, mas esses são os riscos de viver o livro que é a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/640/1%20Janela%20das%20coisas%20que%20ho-de%20vir.jpg'&gt;&lt;img border='0' style='border:1px solid #AAAAAA; margin:2px' src='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/320/1%20Janela%20das%20coisas%20que%20ho-de%20vir.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;JANELA DAS COISAS QUE HÃO-DE VIR&amp;nbsp;&lt;a href='http://picasa.google.com/blogger/' target='ext'&gt;&lt;img src='http://photos1.blogger.com/pbp.gif' alt='Posted by Picasa' border='0' style='border:0px;padding:0px;background:transparent;' align='absmiddle'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava eu sentado numa esplanada. A tarde era quente, a bebida era fria. Reclinei a cabeça para trás, ofereci o meu rosto ao sol e deixei a minha consciência seguir os sons da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti um carro a gasóleo descer a avenida por detrás de mim. Um cauteleiro apregoava a sorte grande junto ao quiosque mais além, onde dois homens discutiam acaloradamente as incidências do jogo de futebol da véspera. Senti uma motorizada dobrar a esquina na minha direcção em algazarra crescente. A conversa de duas senhoras chocadas com a falta de educação do filho de uma amiga comum, foi prontamente abafada pela motorizada que passou ruidosamente ao largo da praça. Senti passos leves a aproximarem-se (pelo menos julgo que antes de ela falar senti passos leves a aproximarem-se, suavemente por sobre o rastro sonoro já quase desvanecido da motorizada), antes de ouvir aquela voz cantarolar juvenilmente com um sotaque estrangeiro que eu falhei em identificar logo desde o primeiro minuto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O seu futuro por uma moedinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri os olhos e fui encarando, à medida que a minha vista se voltava a habituar à cruel e impiedosa luminosidade de um dia de verão sem nuvens, o rosto miúdo da rapariga que não devia ter mais de treze anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mirei o vestido roto e os pés descalços, embora o rosto me parecesse miraculosamente brilhante no meio da tez morena da sua pele e do cabelo castanho queimado pelo sol. Desafiei-a:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Proponho outra coisa. Em vez de me dizeres o meu futuro, respondes-me a duas perguntas. Se eu gostar das tuas respostas eu dou-te uma moeda que vale por duas ou três. O que te parece?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pequena adivinha olhou-me desconfiadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piquei-a:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Se sabes realmente ler o futuro, não podes ter dúvidas acerca da seriedade da minha proposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A candidata a feiticeira assentiu com um aceno de cabeça. Disparei a primeira pergunta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Qual é o teu futuro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A expressão de surpresa não durou mais do que um milésimo de segundo. Prontamente foi substituída pela manifestação de uma maliciosa sabedoria que a tenra criatura não podia ainda ter. Uniu as duas mãos e apontou com os olhos cor de mel uma das extremidades da concha feita pelas mãos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aqui está a tua terra. Ali é o estrangeiro – Indicou com um novo meneio do olhar toda a área abrangida pelas palmas das mãos –, eu estou aqui, estou ali, estou em todo o lado. – Descreveu um círculo, dentro de muitos círculos, com os globos oculares. – Eu pertenço a um povo de caminhantes. – Desfez a concha como se soltasse um pássaro que ascendesse livre para os céus.  – Este é o meu coração, isto é o que eu sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acenei a minha cabeça satisfeito com a resposta e lancei à bruxinha a minha segunda questão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Porque é que algumas portas não servem para entrar nem sair?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela respondeu sem pestanejar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Porque são simplesmente janelas que cresceram demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorri e meti a mão ao bolso. A moeda de dois euros brilhou nos olhos da miúda demasiado jovem para ser já uma mulher. Tomou-a da minha mão, agradeceu com um aceno de cabeça, guardou-a no bolso do vestido e seguiu o seu caminho pela avenida fora. Segui-a com o olhar durante uns segundos, depois peguei no copo e acabei a bebida, já um pouco morna demais para o meu gosto. Esbocei um esgar de amarga impressão e fiz sinal ao empregado para pagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando procurei novamente aquela silhueta franzina no horizonte citadino, perdera já a minha pequena feiticeira para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei-me e segui o meu caminho pelo meio dos rostos anónimos da cidade. Pensei que eu também era apenas mais um desses rostos incógnitos na cidade – eu era tão desconhecido para o meu irmão urbano, quanto ele era para mim. A minha hora de almoço tinha terminado, estava quase na hora de regressar ao trabalho. Apressei o passo. Não me convinha atrasar mais uma vez nesta semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive pena de não possuir o dom de me encolher até ao tamanho duma moeda, para me ter agarrado à moeda que passei para a mão da maga em miniatura, e seguir livre, sem amarras, espreitando o mundo desde a costura daquele bolso encantado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu não era senhor desse prodígio – por isso continuei rapidamente: o prédio onde eu trabalho era já ali a seguir ao virar da esquina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de entrar, ainda lamentei (acho que lamentei) não ter pago realmente para conhecer o meu futuro, mas depois lembrei-me porque é que o futuro é perigoso – o futuro é um jardim secreto onde deuses, curandeiros e charlatães são os jardineiros encarregues de cuidar pela eternidade dos tempos das flores da dor, da fome, da doença e do terror dos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/640/2%20No%20beiral%20da%20janela%20do%20amor.jpg'&gt;&lt;img border='0' style='border:1px solid #AAAAAA; margin:2px' src='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/320/2%20No%20beiral%20da%20janela%20do%20amor.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;NO BEIRAL DA JANELA DO AMOR&amp;nbsp;&lt;a href='http://picasa.google.com/blogger/' target='ext'&gt;&lt;img src='http://photos1.blogger.com/pbp.gif' alt='Posted by Picasa' border='0' style='border:0px;padding:0px;background:transparent;' align='absmiddle'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amo-te tanto… Não penses que o semblante triste, distante e melancólico que tantas vezes surpreendes no meu rosto, tem a ver com alguma coisa errada que tu tenhas feito ou dito. Não, não é nada disso. Tão pouco se deve a eu não me sentir feliz ao teu lado. Não, nenhuma suspeita poderia estar mais errada do que essa. Muito pelo contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que eu sempre fui um inveterado pessimista. O receio dos desenlaces mais dramáticos e inesperados persegue-me em coisas tão banais, corriqueiras e inofensivas como ir tomar o pequeno-almoço ao café da esquina. Pode acontecer um pouco de tudo, desde ficar encravado no elevador, ser atropelado ao atravessar a rua ou acabar no hospital com uma intoxicação alimentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito tempo que aprendi a lidar com isto, mas este estranho repertório de receios e temores nunca será uma memória distante na minha vida, será sempre algo de terrivelmente próximo e familiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu inato e natural sentido de melancolia é a única forma que eu conheço de exorcizar os meus medos… o único modo de conviver com a catástrofe eminente… por exemplo o terror de te perder um dia.&lt;br /&gt;A minha tristeza é a única forma que eu tenho de estar contigo sem que o medo de te perder acabe por me esmagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta é a verdade, meu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tens dúvidas? Não me acreditas? Desejas testar-me no que digo? Aceito o teu desafio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vais fazer o seguinte…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deposita o meu amor nas asas dum pássaro…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abre uma janela…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Solta-o das tuas mãos… rumo ao infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vês?… Sentes a vertigem?…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora deixa-me cair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/640/3%20Janela%20do%20circo%20da%20vida.jpg'&gt;&lt;img border='0' style='border:1px solid #AAAAAA; margin:2px' src='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/320/3%20Janela%20do%20circo%20da%20vida.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;JANELA DO CIRCO DA VIDA&amp;nbsp;&lt;a href='http://picasa.google.com/blogger/' target='ext'&gt;&lt;img src='http://photos1.blogger.com/pbp.gif' alt='Posted by Picasa' border='0' style='border:0px;padding:0px;background:transparent;' align='absmiddle'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os circos deprimem-me um bocadinho. Não tenho nada contra o circo, muito pelo contrário, desejo uma longa e próspera vida a todos os circos. Os circos, mesmo pagando-se o bilhete, fazem serviço público: têm um valor inestimável para a sã formação da capacidade de sonhar e imaginar duma criança. Mas o que acontece quando a criança deixa de existir? No meu caso particular, não posso esquecer que foi num circo que a criança que havia em mim morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca poderei esquecer essa fatídica tarde, em que todas as turmas da minha escola se deslocaram ao circo que acampara na vila mais próxima… Depois de ter entrado nesse malfadado circo, a minha vida nunca mais foi a mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo correu às mil maravilhas até chegar o momento da actuação dos trapezistas. Enquanto todos os miúdos olhavam para cima, de boca aberta, eu apercebi-me de algo muito estranho e perturbador. Aquele homem que cá em baixo manobrava as cordas, ajudando o trabalho dos trapezistas… aquele homem vestido com roupa suja, carrancudo e com cara de poucos amigos… aquele homem não era um dos palhaços que ainda não há muitos minutos andara a saltar e a rir pela arena, iluminando o meu rosto com as lantejoulas do seu fato resplandecente? Mas… como podia ser isso? Como podia aquele homem ameaçador e de mau aspecto ser o palhaço que tanto me maravilhara ainda não havia muitos minutos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguma vez pensaram em qual é a diferença entre o mágico e o ilusionista, naquilo que separa a magia da ilusão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí foi um pequeno passo até caírem todos os outros mitos da infância: por mais incrédulo que isso me deixasse, o Pai Natal não existia mesmo, o coelho da Páscoa não fabricara os ovos de chocolate que todos os anos apareciam lá em casa a seguir à Quaresma e que os bebés, afinal, não vinham de Paris no bico duma cegonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca mais tornei a entrar num circo até hoje. E sempre que vejo um circo desvio pudicamente o olhar, guardando um minuto de silêncio em memória da criança que havia em mim. Ver um circo é como visitar o túmulo do menino que eu fui um dia – é como abrir uma janela para dentro de mim, só para descobrir que não há nada do outro lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na realidade, isso não me serve de muito, pois todo o mundo se tornou um grande circo para mim, depois daquele dia. Se o circo não era o lugar mágico que eu sempre pensara, só podia extrair uma de duas conclusões: primeiro, o circo era um lugar como qualquer outro (como qualquer padaria, supermercado ou banco a que a minha mãe me levasse) ou, segundo, todo o mundo era um grande circo, onde todos se maquilham para assumir um papel na arena da vida. Há o palhaço pobre, o palhaço rico, mas eles não estão sozinhos… há também o palhaço que mente, o palhaço que ri, o palhaço que tem medo, o palhaço apaixonado pela vida, o palhaço triste, o palhaço destemido, o palhaço que mata, o palhaço sincero, o palhaço mal disposto, o palhaço bonito, o palhaço corajoso… entre tantos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que foi esta a grande lição dessa tarde: no grande circo da vida cada um veste a pele que mais lhe apraz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href='http://photos1.blogger.com/img/239/6502/640/3%20Janela%20das%20noites%20sem%20sono.jpg'&gt;&lt;img border='0' style='border:1px solid #AAAAAA; margin:2px' src='http://photos1.blogger.com/img/239/6502/320/3%20Janela%20das%20noites%20sem%20sono.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;JANELA DAS NOITES SEM SONO&amp;nbsp;&lt;a href='http://picasa.google.com/' target='ext'&gt;&lt;img src='http://photos1.blogger.com/pbp.gif' alt='Posted by Picasa' border='0' style='border:0px;padding:0px;background:transparent;' align='absmiddle'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não compreendo. O meu corpo está completamente dormente, o coração bate suavemente, os estão músculos relaxados, não sinto um dedo nos pés, no entanto, adormecer é mentira. Mas eu sei qual é o problema: o corpo está pronto para dormir, mas o espírito não consegue deixar de se inquietar com tudo e mais alguma coisa. Estou demasiado consciente. Devia haver um botão para desligar o consciente quando a noite traz a necessidade adormecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tu a dormir calmamente a meu lado… Não cessa de me espantar e maravilhar a tua incrível capacidade para encostar a cabeça à almofada e apagares completamente. Não me lembro de nenhuma vez que tenhas demorado mais do que cinco minutos a adormecer. Surpreende-me que a vida pese tão pouco para ti. Fico feliz por ti, mas confesso que às vezes quase te chego a odiar por isso. Quase… quase… nomeadamente quando a tua respiração pausada se torna o tic tac dum relógio que gira indiferente acima da minha consciência de mim, contabilizando todos os segundos antes do sono finalmente chegar. Sabes, acho que a tua respiração é a fronteira definitiva para o teu eu desconhecido… aquela parte de ti aonde eu nunca vou conseguir entrar… Se eu pudesse divisar o que tu és, como consigo distinguir o teu cheiro dos cheiros do quarto…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o meu problema neste momento é não conseguir adormecer. Tudo o resto vem por acréscimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não adianta contar carneirinhos. Fico sempre extremamente perturbado por não ver o pastor em lado nenhum. Que género de pastor abandona o seu rebanho aos caprichos de alguém rabugento e sonolento, e que ainda assim não consegue dormir? O sono esconde os sonhos. E os sonhos, por vezes, disfarçam-se de pesadelos, como lobos que vestem a pele de carneiro para mais facilmente surpreender o rebanho. E por onde andará o pastor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já sei como vai ser, quando a manhã começar a desenhar os buraquinhos na persiana, o meu espírito sossegará, e então o sono derramar-se-à sobre mim com uma tranquilidade de morte. Esta é noite de todas as noites… de insónia e insónia até ao sono final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/640/6%20Janela%20do%20eu%20revisitado.jpg'&gt;&lt;img border='0' style='border:1px solid #AAAAAA; margin:2px' src='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/320/6%20Janela%20do%20eu%20revisitado.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;JANELA DO EU REVISITADO&amp;nbsp;&lt;a href='http://picasa.google.com/blogger/' target='ext'&gt;&lt;img src='http://photos1.blogger.com/pbp.gif' alt='Posted by Picasa' border='0' style='border:0px;padding:0px;background:transparent;' align='absmiddle'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui visitar os meus pais no outro dia. Já não punha lá os pés há perto de dois anos. Bem… quando se diz que o bom filho à casa torna, não é costume tomar em conta o tempo que ele demora a voltar. Pois não? Bem me parecia… Vá lá, talvez eu não seja tão mau filho quanto isso…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É sempre estranho voltar à aldeia… reconfortante, mas estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do almoço saí de casa um instante com o pretexto de ir apanhar ar. Pretexto? Não, o passado realmente pode sufocar-nos. Definitivamente não devo ser um bom filho… gosto muito mais dos meus pais quando estou longe deles. Isto embora não duvide que vá lamentar mil vezes não os ter conhecido melhor no dia em que voltar aqui mais uma vez para assistir ao enterro de ambos. Devem ser paradoxos como este que fazem de nós humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei três passos em direcção ao jardim e olhei em volta. Procurei sem grande empenho a ténue linha de fronteira indicando onde o menino se tornou num rapaz e mais à frente onde o rapaz se tornou um homem – parece-me que ninguém se deu ao trabalho de separar com um marco esses territórios, ninguém reclamou por mim a salvaguarda desse património, ninguém comemora ou glorifica as efemérides do meu crescimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta para tudo o que eu sou, jaz por aí algures… o primeiro sorriso, a primeira desilusão, o meu primeiro amor, a primeira vez que toquei o corpo duma mulher… o meu primeiro tudo… Nunca mais tornei a ver o meu primeiro amor. Perdi-lhe o rasto quando fui estudar para a cidade. Os meus pais falaram-me dela na minha última visita. Disseram-me que casou quando eu andava no 2º ano e que teve dois filhos desde então. Que lhe poderia dizer agora se ela me aparecesse aqui? Talvez eu me assustasse como se visse um fantasma, ou talvez ela fugisse apavorada como se fosse eu o fantasma… Em certa medida não estaria tão errada quanto isso. Eu já não sou a pessoa que ela conheceu em tempos. Essa pessoa ficou enterrada por aí em parte incerta. Por aqui algures, jazem sepultados os meus primeiros eus. Quantos eus não passaram já por mim desde então? Que sucederia se organizasse hoje aqui um encontro de sobrenatural confraternização entre todos os “eus” que me transformaram naquilo que sou hoje?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamaste-me de dentro. Pelos vistos, não precisavas de passar muito tempo sozinha com os meus pais para me ficar a conhecer melhor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao entrar ainda apanhei o fim da história que a minha mãe contava. Conheço-a de trás para a frente e da frente para trás. Um dia a professora primária pediu-nos para desenhar a nossa família. Quando pegou no meu desenho ficou estarrecida. Eu desenhara apenas uma casa. “Onde está a tua família?” E eu respondi que era domingo e tinham ido todos à missa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorri, acompanhando a risota geral. Quando todos pararam de rir e a minha mãe já tinha repetido duas ou três vezes a frase “Era domingo e tinham ido todos à missa”, perguntei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como eram as janelas dessa casa que eu desenhei?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu pai riu-se novamente e mudou de assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href='http://photos1.blogger.com/img/239/6502/640/7%20Janela%20do%20cancro%20da%20alma.jpg'&gt;&lt;img border='0' style='border:1px solid #AAAAAA; margin:2px' src='http://photos1.blogger.com/img/239/6502/320/7%20Janela%20do%20cancro%20da%20alma.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;JANELA DO CANCRO DA ALMA&amp;nbsp;&lt;a href='http://picasa.google.com/' target='ext'&gt;&lt;img src='http://photos1.blogger.com/pbp.gif' alt='Posted by Picasa' border='0' style='border:0px;padding:0px;background:transparent;' align='absmiddle'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cancro da alma… acho que é esse o meu mal. Acho que me estou a desfazer lentamente por dentro. A minha alma está a comer-se a ela própria. Metáteses irreversíveis em todas as minhas emoções – todas conduzem ao mesmo vazio e sensação de nada. A minha vida tornou-se numa colecção de pequenos nadas que se acumulam sem voz nos cantos duma sala sem janelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A percentagem de sucesso para qualquer tratamento aplicável ao meu caso é irrisoriamente nula. Quimioterapia metafísica seria perfeitamente inútil. Operar o centro de gravidade do meu desalento seria uma pura perda de tempo e recursos. Nada mais resta a não ser aguardar pelo fim, que receio bem vir ainda muito distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por mais que me esforce, não consigo deixar de perder os meus passos por ruas escuras e sinistras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, parece-me bem que a minha alma está muito para além de qualquer hipótese de salvação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus e o Diabo não perderiam muito tempo a disputá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/640/9%20Janela%20da%20velocidade%20da%20luz.jpg'&gt;&lt;img border='0' style='border:1px solid #AAAAAA; margin:2px' src='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/320/9%20Janela%20da%20velocidade%20da%20luz.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;JANELA DA VELOCIDADE DA LUZ&amp;nbsp;&lt;a href='http://picasa.google.com/blogger/' target='ext'&gt;&lt;img src='http://photos1.blogger.com/pbp.gif' alt='Posted by Picasa' border='0' style='border:0px;padding:0px;background:transparent;' align='absmiddle'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Li “ALJEZUR 19 Km” e olhei instintivamente para o velocímetro do carro. Não era possível, como é que eu podia ir só a 19 quilómetros à hora? Depois ri-me sozinho, apesar de não estar a achar graça nenhuma à conversa do locutor na rádio. A minha cabeça estava a trabalhar realmente muito, muito devagar, ao contrário do carro que avançava furiosamente estrada fora a 120 quilómetros à hora. Levantei imediatamente o pé do acelerador. Já tinha estado mais longe de apanhar uma multa que ainda por cima me deixaria sem carta de condução. O limite ali era 60.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava mesmo a precisar de férias! Há quanto tempo viria eu em piloto automático? Não dera mesmo pela velocidade a que vinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A velocidade é uma coisa engraçada… Do que falamos quando falamos de velocidade? Ritmo? Rapidez? Brevidade? A velocidade, entendamos o que entendamos por ela, é algo de estranhamente urgente e fundamental na vida do homem moderno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A velocidade é o tempo escondido atrás duma máscara. Ninguém pode cronometrar a velocidade, mas é ela que determina em grande parte a cronologia da nossa existência. Isto embora a velocidade se saiba disfarçar de forma habilmente genial. A velocidade tem sempre um alibi, seja o pensamento, o movimento ou a distância. E a vida dos homens estampa-se numa sucessão sem nexo de absurdos, paradoxos e contradições, que tudo o que fazem é deixar as pessoas mais experientes, embora não necessariamente mais sábias. A velocidade é a chave do sucesso nos dias de hoje. É a velocidade que determina quando chegou a altura de mudar, qual o melhor momento para nos vendermos ou quem deve ser sacrificado aos deuses do êxito em prol do bem estar da comunidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre me disseram que eu era demasiado lento, mas houve uma altura em que me convenci de que o mundo é que era demasiado rápido para mim. Na realidade, isso nunca me preocupou por aí além. Se estive desfasado dos meus contemporâneos em algum momento, foi o tempo necessário para acertar os ponteiros com a minha consciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A velocidade é a subtracção da luz pela sombra… e o somatório dos mil e um promíscuos encadeamentos entre a voz e o pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na escuridão cabe a velocidade da luz, veloz demais para iluminar um dia sem as cores da vida. Mas basta o mais insignificante dos pontinhos de trevas para contaminar toda a luz na qual depositámos todas as nossas esperanças, expectativas e desejos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro vem cheio, mas eu sou o único que vem acordado. Talvez fosse bom acordar alguém para trocar umas impressões sobre este assunto, afinal de que vale descobrir a pólvora se não a pudermos disparar contra alguém?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Geralmente sentimo-nos sozinhos quando fazemos as grandes descobertas das nossas vidas. Não foi apenas o homem que inventou os números que se sentiu terrivelmente só… Newton nunca se deve ter sentido tão solitário como quando descobriu a lei da gravidade, Bell deve ter-se sentido muito sozinho ao inventar o telefone, tal como Einstein descobriu um vazio dentro de si no preciso momento em que compreendeu aquilo que viria a ser a teoria da relatividade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, o pessoal que continue a dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALJEZUR 18 Km.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde ficará a janela mais próxima?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/640/13%20Janela%20da%20Rdio%20Horizonte.jpg'&gt;&lt;img border='0' style='border:1px solid #AAAAAA; margin:2px' src='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/320/13%20Janela%20da%20Rdio%20Horizonte.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;JANELA DA RÁDIO HORIZONTE&amp;nbsp;&lt;a href='http://picasa.google.com/blogger/' target='ext'&gt;&lt;img src='http://photos1.blogger.com/pbp.gif' alt='Posted by Picasa' border='0' style='border:0px;padding:0px;background:transparent;' align='absmiddle'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não gosto de ouvir rádio. Adoro ouvir música, mas não gosto de ouvir rádio. Detesto publicidade. Odeio estar a ser bombardeado com o mesmo anúncio trinta vezes durante uma hora. Isto sobretudo porque não gosto que se dirijam a mim com falinhas mansas tomando-me pelo estereótipo do consumidor médio. “Não seja tolo, vá antes a…” ou “Prove que é inteligente e compre…” ou ainda “ Sabemos que você não é parvo, por isso temos para si…”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bah!…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não gosto mesmo rigorosamente nada de publicidade, mas tenho uma especial aversão à publicidade radiofónica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse não é, contudo, o meu único problema em relação à rádio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para além da publicidade há ainda a questão de eu não apreciar particularmente que me dêem música. A ideia de que outra pessoa escolha as músicas que eu ouço é para mim pior do que presumir que eu não sou dono e senhor do meu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rádio não, obrigado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que isso que isso complica e muito as minhas longas manhãs e tardes de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso tive de encontrar uma alternativa. Criei a minha própria rádio. Uma rádio mental. Só passa as músicas que eu desejo e às horas que eu quero. O processo de difusão é extremamente simples: lembro-me duma música que me diz alguma coisa e começo a sua difusão mental, começo a tocá-la de memória. Às vezes nem a emito toda, fico-me só pelo refrão ou pela parte de que gosto realmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É esta a minha rádio. Chamei-a “Rádio Horizonte”, pois abre no meu tristonho e insípido gabinete uma janela para outros horizontes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href='http://photos1.blogger.com/img/239/6502/640/10%20Janela%20da%20cidade%20secreta.jpg'&gt;&lt;img border='0' style='border:1px solid #AAAAAA; margin:2px' src='http://photos1.blogger.com/img/239/6502/320/10%20Janela%20da%20cidade%20secreta.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;JANELA DA CIDADE SECRETA&amp;nbsp;&lt;a href='http://picasa.google.com/' target='ext'&gt;&lt;img src='http://photos1.blogger.com/pbp.gif' alt='Posted by Picasa' border='0' style='border:0px;padding:0px;background:transparent;' align='absmiddle'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É estranho caminhar no meio da cidade. Tenho sempre a bizarra sensação que todos caminham em sentido contrário ao meu. É estranho atravessar, contra corrente, o fluxo humano que segue imperturbável o curso natural do rio da vida. Talvez devesse mudar de direcção. Afinal eu não sei para onde vou, e, eles, ao menos, parecem saber qual é o seu destino. Em que mar desaguará toda esta gente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes sinto-me como que a caminhar à beira dum abismo. Não. É mais como caminhar na corda bamba. Equilibro-me o melhor que consigo. E os outros? Onde está a corda deles? Se são só espectadores, como conseguem cruzar-se comigo pela rua fora, tão cheios de si próprios? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aonde termina esta avenida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez os outdoors publicitários lá ao fundo de onde eu venho mas donde não parti, exibam orgulhosamente a face do consumidor do dia (será isso que se deve entender pelo “dar a outra face” que vem escrito na bíblia?). Poderá esse ser um sentido para a vida? Teres a melhor roupa, morares na melhor casa, comprares o melhor automóvel, os teus filhos vestirem as melhores marcas, passares as férias nos locais mais exóticos e seres desejado como cliente pelos melhores bancos e pelas melhores seguradoras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A avenida mistura-se com todas as ruas da cidade. Em cada rua há um cinema, várias cadeias de fast food, lojas de todos os tamanhos e feitios com produtos para todos os gostos e carteiras, mesmo quando não lhes chamam lojas…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo se vende, tudo é descartável …inclusivamente (especialmente!) as pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez, estando eu a fazer tempo à espera da hora certa para um encontro, entrei acidentalmente numa galeria de arte. Não me recordo do nome do pintor, mas recordo perfeitamente que a exposição se chamava “Retratos” e que o traço era grotesco e pincelado a todos os tons de castanho. A maior parte dos quadros eram grandes planos de rostos grosseiros e sofridos, embora houvessem também panorâmicas enormes, monstruosas, do olhar de alguém que parecia mirar-me desde os confins mais sagrados e secretos de mim próprio. Porém, o quadro que realmente me perturbou não foi nenhum destes. O quadro que inequivocamente mexeu comigo, foi um outro. Consistia em metade duma janela de abrir ligeiramente descaída para a esquerda. Os três vidros haviam sido decorados com três retratos do mesmo rosto (confiantemente perverso, ingenuamente sonhador e inexplicavelmente apavorado), não deixando entrar ou sair qualquer imagem para fora ou para dentro. O ferrolho estava descido, mas encerrava apenas uma certa e indefinida inquietação dentro do meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele rosto não era o meu – mas também era eu, eras tu, era ele, éramos todos nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei especado a olhar para aquela janela por tempo indeterminado, até olhar para o relógio e verificar que ia chegar atrasado ao meu encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À saída troquei um olhar furtivo com alguém que entrava para visitar a exposição. Iria jurar que conhecia aquela pessoa de algum lugar… só que desviei os olhos tão depressa quanto ele. Talvez tivesse sido meu colega na escola ou na tropa. Ou talvez fosse simplesmente uma daquelas faces anónimas que à força de tantos nos cruzarmos com ela acreditamos, por uma fracção de segundo, ter-se tornado um dos nossos melhores amigos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca vos aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for… eu estava de volta à rua, e eles, os outros, lá iam – cheio de si próprios…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me do tempo em que me interrogava “Será que me esqueci de fazer uma janela na grande muralha de mim?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era uma muralha, sei-o agora – era um arranha-céus; um edifício tão alto, tão alto que a sua altura rivalizaria com a Torre de Babel (embora à sua volta todos falassem inglês).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida das pessoas é um prédio construído no meio duma cidade desconhecida, situada num país de que ninguém nos diz a localização ou o nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É difícil saber quem somos, sem saber como se chama o lugar onde vivemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meu vizinhos continuam a gritar dum prédio para o outro, tentando descobrir algo ou alguma coisa cujo sentido sempre me escapou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As ruas estão apinhadas de vozes silenciadas pela evolução das mil e uma formas de telecomunicações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href='http://photos1.blogger.com/img/239/6502/640/11%20Janela%20do%20fim%20de%20tudo.jpg'&gt;&lt;img border='0' style='border:1px solid #AAAAAA; margin:2px' src='http://photos1.blogger.com/img/239/6502/320/11%20Janela%20do%20fim%20de%20tudo.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;JANELA DA MINHA VIDA&amp;nbsp;&lt;a href='http://picasa.google.com/' target='ext'&gt;&lt;img src='http://photos1.blogger.com/pbp.gif' alt='Posted by Picasa' border='0' style='border:0px;padding:0px;background:transparent;' align='absmiddle'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Regra geral, as coisas acabam da forma como têm que acabar, não da forma como nós gostaríamos que acabassem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de ser eu a viver a minha vida, não posso controlar o meu destino… o meu destino ou a corrente aleatória de factos e eventos que as pessoas designam a meio de um gemido fatalista como o seu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso escolher o curso do rio que é a minha vida, tenho de me adaptar ao leito tantas vezes ao longo da história da humanidade percorrido por todos os homens e mulheres que sentiram o que eu sinto antes de mim. Tenho de aprender a deixar-me levar pela corrente. Por mais que eu resista ela acabará por me arrastar na enxurrada que desagua no oceano das vozes perdidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem mesmo eu posso definir quais as portadas que estão abertas na janela que é a minha vida. Essa janela fica lá em cima, no primeiro andar duma casa sem portas. Posso observá-la de cá de baixo. Porém, é-me fisicamente impossível esticar os braços para lhe escancarar as portadas e deixar entrar a luz. Não posso fazer outra coisa que não ficar cá em baixo, solitariamente solidário da minha impotência, a olhar para a minha vida… ou será que posso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, quando voltei para casa, senti como é bom ter-te por perto, meu amor… às vezes é bom abrir uma janela para o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/640/16%20Janela%20do%20Happy%20End.jpg'&gt;&lt;img border='0' style='border:1px solid #AAAAAA; margin:2px' src='http://photos1.blogger.com/hello/239/6502/320/16%20Janela%20do%20Happy%20End.jpg'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;JANELA DO HAPPY END&amp;nbsp;&lt;a href='http://picasa.google.com/blogger/' target='ext'&gt;&lt;img src='http://photos1.blogger.com/pbp.gif' alt='Posted by Picasa' border='0' style='border:0px;padding:0px;background:transparent;' align='absmiddle'&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca me esqueci da conversa dum parzinho de namorados que, certa vez, saiu à nossa frente do cinema. O que não deixa de ser engraçado, pois não faço a mínima ideia de qual era o filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gostaste?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela respondeu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu achei a história bonita. Agora se acabasse mal… Não sei. Não sei.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20075512-113519654126306135?l=ohomemqueescrevianasjanelas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20075512/posts/default/113519654126306135'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20075512/posts/default/113519654126306135'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ohomemqueescrevianasjanelas.blogspot.com/2005/12/excerto-contendo-11-de-21-textos-e.html' title='(Excerto contendo 11 de 21 textos e fotos)'/><author><name>Caçador de Palavras</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05214647989114238912</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_H2jDtWUO6N4/SUgzcFMQQGI/AAAAAAAAAtE/WH9cxVBB0dM/S220/Fotografia+de+Ant%C3%B3nio+Catarino.jpg'/></author></entry></feed>
